Contos

Conto : A Porta!

Desta vez publico um conto da minha autoria, que explora a temática do terror psicológico. Espero que vos agrade!

Roberto Mendes

A Porta!

Lembro-me que o dia acordou em tons laranja e com um cheiro doce de canela e mel; Agora o sol já perpetuou a sua viagem pelo céu, pintando-o de azul celeste pela manhã,
salpicando-o de cinzento-escuro pela tarde: fazendo a chuva cair pela terra: o cheiro
molhado a imperar. O feixe de luz que entrava pela janela de vidros sujos iluminava parte do meu corpo sentado com as costas apoiadas na parede da antiga sala. Lembro-me de ter esticado o braço e aberto a mão numa frustrada tentativa de a agarrar: a luz! Mas apenas consegui fazer dançar o pó que consumia o ar; retirei a mão sem pedir desculpa ao pó que acabou por voltar à sua posição inicial: a dançar, a dançar na luz; Nas minhas mãos tenho uma chave; uma pesada chave de latão, amarela, pesada por ser antiga, pesada por ser daquela porta, da porta que nunca abri. Agora o sol já se deitou na sua cama ardente e todos dormem, mas eu estou acordado no luar. Olho a porta mágica; a sua madeira corroída pelo tempo, tanto tempo. É a porta de meu pai, a porta que nunca me foi permitida, a minha porta amiga! O tempo que passei a olhá-la, somado pela ampulheta eterna, é superior a uma eternidade. Passei mais tempo a admirá-la do que a viver; aliás, não vivia enquanto não a olhava. A minha mente recua, recordo o dia em que a vi pela primeira vez:

Tinha oito anos, a minha família havia-se mudado para uma pequena casa no campo, fugindo de um passado que nunca percebi.. A casa era muito simples, bastante humilde. Nada se destacava a não ser uma velha porta de carvalho escuro. Até aqui nada de especial, contudo esta porta estava repleta de trancas que finalizavam longas correntes de ferro. Era vedada, proibida desde o primeiro dia pelo meu pai. Fascinava-me aquela porta. Dedilhei as correntes, sentindo o frio ferro na pele. Um enorme desejo de entrar levou-me a pegar nas fechaduras num movimento rápido, quase me esqueci que seria impossível forçar correntes tão colossais. De súbito recordei as ordens do meu pai e, assustado, emergi do meu profundo transe rodando sobre mim mesmo numa fracassada tentativa de emendar o erro cometido, mas era tarde demais; Um enorme punho cerrado, agigantado pelo medo que senti, abateu-se sobre a minha face fazendo-me girar no ar, corpo atirado no vazio, ferido ensombrado pela lamacenta passagem do tempo pela realidade que se alimenta de todos nós. Cuspi sangue na porta, gotículas da minha individualidade que se juntaram àquele misterioso ser que me fascinava. Atordoado tentei levantar-me mas ao ver a porta conspurcada com o meu sangue o meu pai desferiu um enorme pontapé no meu estômago, levando a que a pesada bota de cabedal emitisse um impacto surdo que pareceu perfurar o meu corpo. Cuspi mais sangue vermelho vivo, repleto de viscosidade e dor, sangue que jorrou directamente para os tacos de madeira que me abrigavam, trincheira de guerra do soldado moribundo.

Olho agora para a porta, semi descoberta pela bela luz lunar e admiro os resquícios de sangue que ainda ali permanecem, tão decididos a nunca a abandonarem, tal como eu.

Ali fiquei, prostrado no chão numa falsa imobilidade, rezando baixinho para que tudo parasse…e, ainda que incitado pelo meu pai, eu não ousava levantar-me:

- Levanta-te! Enfrenta-me como um homem – vociferava;

Não me levantei, não consegui reunir a coragem suficiente para tão grande esforço. Ainda ouvi um desdenhoso “maricas” que prontamente foi abafado pelos meus gritos de dor enquanto era pontapeado mais alguns segundos que me pareceram uma eternidade. Finalmente os golpes pararam e eu agradeci a todos os Deuses por ter sobrevivido, abri os olhos e vi o sorriso doentio que desenhava a cara do meu pai em tons de orgulho e prazer.

-Olha o que me fizeste fazer… – atirou ele antes de me deixar batendo com a porta que dava acesso ao seu quarto. Fiquei ali, enroscado em dor, aninhado em solidão. No meu delírio de tortura pensei ter ouvido uma voz sibilante que me garantia que tudo ficaria bem. Ouvi ainda o som de vidro a quebrar e os gritos da minha mãe enquanto o meu pai se divertia; adormeci…

“Acorda meu pequenino; acorda agora pois a mim já me acordaste; ah, à mil anos ou mais que durmo, esquecida no tempo, não mais que simples espectro pestilento, envolvida em branco impuro tingido de negro, pintado de escuro…acorda pequenino e viverás…” a voz sibilante fazia soar as suas palavras no interior do meu espírito. Seria um sonho? Ou o sonho seria a realidade? Pois como poderemos saber se o sonho é, na verdade, a realidade e a realidade é o verdadeiro sonho? Podemos acordar (ou pensar que acordamos) quando na verdade adormecemos. A vida real pode ser o sonho… a minha mente deambulava entre pensamentos, nunca soube bem porquê mas sempre me fascinou pensar, e a minha mente sempre fervilhou com milhares de pensamentos simultâneos, que me assaltavam, tomando conta de mim, paralisando-me, intensidade incontrolada no mundo das ideias; E foi assim que acordei (ou será que adormeci?), envolvido pelas palavras doces de uma voz que não conhecia, mas que logo amei. Os raios do sol madrugadores emprestavam à sala uma aura incandescente. Obriguei-me a levantar e com um rápido e doloroso duche limpei o sangue seco e coagulado das minhas feridas. Entrei na cozinha, a minha mãe chorava, abracei-a e saí sem comer nada. O meu estômago latejava de dor. Pendurado na porta estava um cartaz escrito à mão: “que ninguém toque na porta, senão…”; que palavras meigas tem o meu pai, pensei. Saí e abracei a manhã doirada e verdejante. Explorei a área circundante sem encontrar nada que me fizesse olhar duas vezes até que me deparei com  um trilho que passava por entre o bosque, aquele caminho atraía-me! Segui-o. Era bom saborear a brisa fresca que se fazia sentir. Na minha solidão recordei a voz que me envolvera, que sonho estranho, conclui. Caminhava à largos minutos quando o vi. Não esperava encontrá-lo ali, nem ali nem em qualquer outro lugar, não, não, não… Um grito mudo inflamou o meu peito ao ver o seu sorriso inconfundível.

-Vem aqui! – Obedeci prontamente. Ele estava encostado a uma enorme e velha sequóia. O seu serrote repousava no chão. Odeie-me por me ter sentido atraído por aquele caminho, que armadilha diabólica.

– Sobe a esta árvore – a sequóia agigantava-se a todo o bosque, paralisei;

– Obedece – não me mexi – Obedece raios, sou teu pai…

O meu corpo arrancou-me da minha inércia escapando por pouco a um pontapé que se perdeu no ar. De súbito estava sentado em cima de um grosso ramo da árvore, talvez a dois metros do solo. O meu pai parecia satisfeito.

– À muito tempo que quero saber algo; quero saber se o meu filho confia no seu pai! Deixa-te cair, confia em mim e eu apanhar-te-ei, prometo. – o medo insurgiu-se contra mim, pânico desmedido que me controlava. Fechei os olhos e deixei-me cair : eu a cair, os meus olhos a abrir, o sorriso rasgado tornando-se numa enorme gargalhada que consumiu o mundo, e eu logo a querer desistir, e eu a cair, e ele a rir, o meu corpo a cair, e ele a sair, e eu a cair…dez segundos, dez minutos, dez horas, dez dias, dez semana, dez meses, dez anos, dez mil anos…e uma lágrima a surgir, e ele sempre a rir, e o grito abafado sem sair: os meus ossos a partir…

– Nunca confies em ninguém, esta é a lição que te ofereço;

A noite ainda me abraça e as lágrimas teimam em rolar pela minha cara; olho-a de novo. Apenas ela me compreende. Tudo o que fiz foi por ela, pela minha porta mágica, pela minha voz sibilante. A chave torna-se cada vez mais pesada e a minha mente recua de novo…

Os meus dias tinham apenas um propósito, admirá-la passar tempo com ela, imaginar os mil mundos que me eram descritos pela voz sibilante; se ao menos pudesse entrar; “comigo poderias ir para onde quisesses, para que tempo e espaço quisesses pois eu sou o portal dos mundos”; Eu assistia aos breves momentos em que a porta era aberta, apenas o suficiente para que o corpo do meu pai passasse. Ele permanecia ali horas…depois quando a porta reabria era de novo por fugazes segundos e era tão pouco que nunca consegui ver nada… A minha vida resumia-se a um quotidiano fastidioso : acordar e seguir para a escola onde era posto de parte pois era diferente. Chamavam-me o “louco”, ninguém me dirigia a palavra. Chegava a casa para almoçar e de tarde trabalhava com o meu pai, cortando lenha e vendendo-a porta a porta. Não passava u dia sem que precisasse de prescindir de algumas gotas de sangue cansado e triste para que o meu pai se pudesse sentir bem. Tinha apenas uma amiga, a porta! Os dias foram passando sempre iguais…

14 outubro de 1953 : Iria ter um irmão. Era o meu décimo quinto aniversário e iria ter um irmão. Com a cabeça encostada à porta fechada da cozinha eu ouvia a minha mãe contar a uma vizinha: “estou de três meses” dizia ela “quando contas ao teu marido?” perguntou a vizinha ,“não sei”…

1 de Novembro de 1953: Apesar de a barriga da minha mãe ser já um pouco saliente o meu pai ainda não sabia da sua gravidez. Eu estava com ele, desde que soubera que teria um irmão que a vida me sabia melhor; A presença da voz era agora muito mais frequente e até durante o dia eu podia falar com ela. Juntos combinámos como eu acabaria por derrotar o meu pai e como fugiria com a minha mãe e o meu irmão para outro mundo. Caminhávamos na carroça que o meu pai havia construído; O meu pai puxou as rédeas e a mula abrandou. Saímos rapidamente e carregámos dois grandes cestos de lenha. A casa do nosso vizinho é pequena, pintada de branco com um bonito rodapé azul. Entregamos a nossa última carga do dia. O dinheiro é entregue, é tempo de ir para casa. Subimos para a carroça . A mula arranca vagarosamente.  O meu vizinho encontra-se no sopé da estrada de terra batida. Grita para nós, o meu pai volta-se e ouve “ desculpa, esqueci-me, parabéns pelo novo rebento” . A expressão do meu pai é colérica. Eu encolho-me de medo.

A nossa casa surge, a noite já cai sobre o dia.. O meu pai entra em casa, na sua mão direita leva um barrote enorme de lenha. Pontapeia a porta da cozinha e avança. Desfere dois golpes com o pau apanhando a minha mãe no dorso e no ventre: já não vou ter um irmão. Sinto o ódio tomar conta da minha consciência, sinto-me enlouquecer, desmaio.

Acordo, a voz não me diz nada, procuro-a ainda antes de abrir os o lhos, chamo por ela mas nada acontece; Abro por fim os olhos, assustado vejo que não sei onde estou. Encontro-me deitado numa pequena cama com um colchão muito duro. Pareço estar num quarto bastante pequeno, as paredes são sufocantes, pintadas de branco, sem mácula, não existe qualquer janela. .Estou desconfortável, tento mexer os braços mas não consigo. Olho e pasmo: um colete branco envolve-me, prendendo-me. Nos meus tornozelos duas correntes prendem-me à cama. Grito, grito muito alto, estou apavorado. Dois homens grandes, médicos vestidos de branco, aparecem de súbito e agarram-me. Um segura numa seringa…depois tudo se tornou muito confuso…adormeço…os anos passam, primeiros dez, depois mais dez e a voz não aparece, e eu longe dela, encerrado no manicómio…

As lágrimas já cessaram. É maravilhoso como quando acabamos por desistir, conformando-nos com a impossibilidade de alcançar o desejado, no exacto momento em que baixamos os braços os nossos sonhos ressurgem, dando-nos nova esperança. Depois de eras negras, séculos obscuros, a voz finalmente voltou! Surgiu triunfante no seu esplendor de perfeição, acordando todos os meus sentidos, acordando em mim sentimentos perdidos. A dor, o desejo e a paixão: Vingança…a palavra surgia doce, trazendo-me um sorriso de prazer.

O sangue lodoso escorre pelo soalho de madeira corroída pelo tempo. Brilha, vermelho vivo infestado de veneno translúcido. Escorre, por vezes só um fio, outras vezes um autêntico rio negro voluptuoso que abraça o mundo. Caminha pelo chão, rodeando o seu corpo. Deitado de costas, com um sorriso cínico pintado sobre olhos de espanto e medo está ele, o meu pai! A poça de sangue é a sua cama, leito divino do pecador; e o sangue galga os orifícios mágicos jorrando para o real, sorrindo para mim, eu sorrio para ele também, sangue do meu sangue, criador entorpecido pela lânguida lâmina afiada.

O sangue pálido desliza, fraco, por entre caminhos tortuosos, vermelho baço, insignificante. Escolhe caminhar para os seus braços, amor eterno de maus tratos doces, envolve-se com ele, sangue viscoso, numa dança inebriante que me revolta o estômago; A minha mãe olha-me com olhos vazios e brancos de censura, morta, pó lançado ao vento; O sangue atinge a porta e não pára, entra e a raiva explode, nem mesmo mortos deixam de se escapar por ela, mas ela é minha, só minha! Rio alto, bem alto e ela ri comigo, finalmente acabei com eles, sou livre, posso entrar e perder-me em cidades escuras cobertas de neblina branca, em mares vermelhos e nuvens azuis.

- És um fraco, sempre o foste; sempre o disse à tua mãe.

O meu coração petrifica, desvio o olhar do chão vermelho e fixo-o: está levantado, o sangue continua a jorrar de forma avassaladora, os seus olhos demonstram-me desprezo.

- Bah, sempre serás um fraco, um louco!

- Eu não sou fraco! – grito acordando a noite.

- És, meu filho, sempre serás fraco. Porquê? Porquê nós? Sempre te protegemos dos teus delírios, sempre cobrimos a tua desgraça. Não percebes que estás louco? – a sua voz soa melodiosa enquanto o seu corpo defunto ganha nova vida, cadáver belo de longos cabelos caídos envoltos numa pasta vermelha de sangue coagulado, oscilando entre o amor e o ódio, a ternura e o horror.

- Mãe, és tu? Mas…como é possível?

- Não sei bem, mas penso que sempre viveremos através de ti, apesar de nos teres assassinado; Sempre viveremos em ti porque tudo fizemos por ti, o amor que te demos, eu e o teu pai, e tudo o que fizemos por ti…talvez tenhamos ganho esse direito, o de perdurar em ti, para que possamos conseguir na morte o que nunca conseguimos em vida, mostrar-te a realidade.- o cadáver da minha mãe juntava-se ao cadáver do meu pai, num abraço de morte. Lágrimas secas escorrem nas suas faces.

- Eu conheço bem a vossa realidade, senti bem a realidade dele, quantas vezes me bateste? E quantas vezes na tua mulher, minha mãe?

- Nunca, nunca vos toquei nem com um dedo. Nunca levantei os braços para nenhum de vocês, nem nunca o faria.

- Mentira – vocifero.

- Não é mentira meu filho – a minha mãe liberta-se do abraço e caminha para mim, toca-me na face com a sua mão gelada; – foste sempre tu meu menino, sempre tu quem bateu. Foste tu que nos obrigas-te a mudar para esta casa, escondendo um terrível segredo, fugindo da morte de dois miúdos da nossa antiga aldeia, dois miúdos que tentaram magoar-te. E logo empunhaste uma lâmina que lhes refreou o ímpeto.

- Não, isso nunca aconteceu, mentes;

- Não minto! Tu nunca viveste a mesma realidade que nós, eras normal, um miúdo doce, contudo, de tempos em tempos sofrias acessos de loucura dos quais nunca te lembravas, e depois sempre culpavas o teu pai, o teu meigo pai que tudo fez para te proteger. Apregoavas ouvir vozes que não existem…

- Não! Cala-te, mentes, mentes, mentes; A voz é real! Existe, é minha amiga, a minha única amiga – o meu braço balança a lâmina de trás para a frente, enterrando-a vezes sem conta no vazio do seu corpo. Paro, assustado; perdi a noção do que fazia e ela olha para mim com uma expressão de compreensão profunda.

- O que tu fizeste ao teu pai não tem perdão, mas ele perdoou-te sempre, sempre.– as lágrimas desciam no rosto do meu pai, nascendo nas cavidades que outrora albergaram olhos fortes. – Certa vez atiraste-te de uma árvore e depois culpas-te o teu pai, a policia e os vizinhos acreditaram em ti e o teu pobre pai quase foi preso. Mas ele perdoou-te. Mas o que nunca poderíamos perdoar veio depois… – e eu vi: eu a sair da carroça com um pau enorme alojado na minha mão, eu a correr e o meu pai a gritar para eu parar, eu a entrar em casa, na cozinha, eu a balançar o pau, um som oco a ressoar: já não vou ter um irmão! Caio de joelhos, incapaz de me concentrar, incapaz de aguentar.

- Nunca te perdoaremos… – soam as vozes dos meus pais. Levanto a cabeça e olho. O que vejo? Dois corpos prostrados no chão, o sangue no sangue; O silêncio, a verdade! Aponto para ela, para a porta, e grito:

- Porquê?

O silêncio enlouquece-me. Levanto-me, empunho a chave numa mão e na outra a lâmina mortífera. A chave entra na porta, quero perder-me nos mundos, agora mais que nunca, pelo menos ainda posso viajar no fantástico, para lá deste universo… um som ouve-se, depois outro. Mais um “clic”, a fechadura é violada. Lentamente a porta abre: uma porta sobre a escuridão profunda de sombras e vultos sem luz. Ali podiam estar mares de cores, céus repletos de estrelas cadentes, cidades mágicas, rios vivos…muito devagar a escuridão é absorvida pela luz, depois os vultos tomam formas e o nada abate-se sobre mim: uma pequena divisão revela-se, poeirenta, quase nua, apenas uma velha secretária e uma cadeira de três pernas… “ Ah, ah, ah…” ouço-a rir… a lâmina atinge-me o coração e eu caio, primeiro de joelhos, depois ouço todo o meu peso abater-se sobre o chão.

BIOGRAFIA

Roberto Mendes nasceu em 1987 e é um apaixonado pelas artes, em especial do fantástico. Foi o criador do Correio do Fantástico, um blogue colectivo sobre a arte fantástica. Edita a revista “Dagon” e o “Jornal Conto Fantástico”.


NO LABIRINTO- conto de Ricardo Loureiro

Publicamos mais um conto mantendo desta forma um ritmo bastante aceitável de publicações. Os nossos objectivos passam por publicar cada vez mais ficção, neste que é um espaço que complementa o Jornal “Conto Fantástico”.

Desta vez publicamos um conto de Ricardo Loureiro, autor que é conhecido pelos seus contos e pelos seus saudosos projectos editoriais, como a “Hyperdrivezine” e a  revista “Nova”.

Mergulhem então neste conto!

hyperdrivezine

NO LABIRINTO

Ricardo Loureiro

Mais uma vez caiu. Sem rumo, indefinidamente. Num turbilhão de emoções, vórtice sedento de imagens, textos… conteúdo.

Era cada vez mais difícil encontrar uma âncora na realidade. Ela escapava-se, subtilmente, como areia numa ampulheta. Onde estava um eixo? Um fio condutor que o guiasse? Nada o orientava naquela zona, na periferia do real. Era uma viagem que cada vez mais se tornava de um sentido único. Sem retorno.

Seguiu as vias do que em tempos fora conhecido como os nós da net. Os circuitos neuronais enviavam-lhe representações baseadas numa realidade que a pouco e pouco deixava de ser a dele, mas que, apesar disso, os engenheiros ainda acreditavam que era a forma mais fácil de ajudar o córtex a criar balizas para que o crawler não caisse na catatonia. Auto-estradas, rios, caminhos asfaltados ou não. Uma sucessão de casas ou prédios, engarrafamentos, desastres. Tudo cada vez mais fugidio, mais desligado da sua realidade. O que era aquilo, afinal? Uma família feliz acenando-lhe? Um velho num tractor? Barcos em regata? Apenas uma vez vira o mar. Apenas uma vez apreciara um pôr-de-sol. O seu mundo regia-se por sinais, impulsos, códigos, objectos, fontes, compiladores, debuggers. As suas medidas eram de nanómetros, o seu tempo media-se em ciclos de terahertz.

Completou o run e entregou os pacotes ao user_agent. Desligou-se. Re-emergiu na sala, silenciosa, escura. Com uma extensão apalpou a nuca. Uma ligeira comichão incomodava-o há uns dias. Levou-a à boca. Tinha sangue. Marcou uma inspecção no PIM que enviou o pedido para a Central. A resposta foi instantânea. Viria um técnico dentro de duas horas.

Relaxou-se ligando-se momentâneamente à linha PRIVATE. Saint estava online e entrou em chat privado. Era mais caro, mas compensava ouvi-la suspirar só para ele. Só para ele.

O tecido monomolecular que se ajustava ao pénis encontrava-se ligado por filamentos quase microscópicos à consola Mark-VI. Os impulsos electrónicos excitaram-lhe a glande. Saint manejou o joystick com a perícia habitual. O avatar era uma versão 2.2.3. Avançadissíma. Performance acima das normas do Consórcio. Mas pagava-se. Pagava-se bem. Demasiado bem. Viu os creds a desaparecerem como água sorvida na areia do deserto até que um relâmpago flashou-lhe a retina. Era um aviso do account_manager. Os creds gastos aproximavam-se do limite imposto. Desligou-se. Sete segundos de relaxamento. 10.000 creds. Teria de fazer overtime, hoje. Contactou DeSanti. Os melhores jobs eram os dele. Rápidos, limpos, seguros. E bem pagos.

O técnico entrou na sala. Sem uma palavra aplicou-lhe um dermo-penso na nuca e recolheu uma amostra de pele para o laboratório. A interface da consola debitou outros 200 creds da estafada account. A Maintenance’R’Us ficava rica à conta dele. Tinha de ver a cotação da bolsa destes tipos. Fez uma nota no PIM.

DeSanti apareceu na porta 8080. Só ele para conseguir hackar a Mark-VI. Por vezes interrogava-se porque razão DeSanti não fazia ele próprio os seus trabalhos. Um run de 5/6 segundos. Uma conexão tão rápida que ele nem sequer iria dar por ela. E pagava 15.000 creds. Aceitou. E mais uma vez caiu. No vórtice.

Na voragem.

O maior perigo eram os WORMS. Mas com um bom arsenal de countermeasures, da McAfee e da CA, sentia-se protegido contra tudo ou quase tudo. Os downloads eram instantâneos e os patches surgiam a um ritmo alucinante. As assinaturas dos WORMS eram conhecidas quase à velocidade a que apareciam. E os stealth-engines já não tinham capacidade polimorfizante para superar as countermeasures. A guerra digital estava num impasse. Nem um lado cedia, nem o outro desistia.

Mais rápido, melhor, mais avançado. Desligou a interface neuronal. Mergulhou no aBstraCt. Por breves nanosegundos demorou-se a admirar a perfeição matemática dos fractais. Os caleidoscópios sucediam-se em miríade num constante pulsar de códigos, words, memallocs dinâmicos. O aBstraCt tinha a capacidade de o maravilhar sempre, mas atrasava-o. Ele tinha consciência disso, mas tudo era preferível às imagens anódinas pensadas por uns quaisquer engenheiros há muito mortos.

Completou o run. Saltou do aBstraCt. Confirmou o account. Os creds lá estavam.

DeSanti nunca falhava.

A comichão tornou-o a incomodar. Decidiu ligar umas luzes e ver o que se passava. Apontou uma câmara à nuca e aumentou gradualmente a luz na sala. Um bip avisou-o da possibilidade de queimar as retinas. Já era suficiente para observar num monitor a imagem. A nuca estava sanguinolenta. O penso, encharcado, quase se despegara. Fios de sangue escorriam pelas costas. Ordenou às extensões para limparem com toalhetes o sangue. Eficientes, clínicas, as extensões desceram do tecto, abriram portinholas em armários, e munidas de toalhetes de bebé limparam carinhosamente as costas do crawler.
Desligou as luzes. Por momentos pensou em Saint. E em Angel. Eram as suas preferidas. Mas hoje já não podia ser. Entrou na Board para agarrar mais jobs. Seleccionou dois runs simples e rápidos. Fez as entregas em sete segundos e meio. Havia um bottleneck no antigo node japonês. O Consórcio estava avisado, mas nada fazia. Politiquices.

O PIM piscava-lhe na periferia da visão. Abriu-o. Uma msg da Maintenance’R’Us com flag de urgente. Leu-a e um calafrio percorreu-lhe os poucos centímetros de carne. A amostra recolhida pelo técnico continha traços de agentes desconhecidos. Só podia significar uma coisa. Contaminação. De imediato correu os logs e fez um histórico dos últimos runs. Nada de anormal, mas…. Ali… Aquele run. E aquele outro ali. E mais outro ali. Todos para a mesma entidade, todos com intervalos certos. Devolveu os dados ao cruncher e de imediato resolveu determinados cenários e possíveis conjugações de valores. Sim… Jobs com flags do mesmo operador. DeSanti! Ainda agora correra uma job para ele! A contaminação surgira dos pacotes dele? Ou seriam necessários mais dados? O cruncher não conseguia extrapolar mais cenários. Estava bloqueado por falta de dados. Entrou no fórum dos crawlers e correu as threads em busca da expressão DeSanti. Devolveram-lhe 1283 ocorrências. Percorreu-as todas e novamente o medo agarrou-lhe as entranhas. Os crawlers começavam por postar sintomas semelhantes ao dele ocorridos aquando de runs para DeSanti. Depois silêncio. Saiu do fórum e negociou um contacto com DeSanti. Não disponível, foi a resposta imediata. Insistiu. Sem efeito.

O admin contactou-o com a habitual msg de shutdown. Preparou-se. Os crawlers chamavam ao tempo offline, limbo. Ele gostava de pensar nestes minutos como o purgatório das almas condenadas a redimirem pecados que já ninguém sabia sequer quais eram. Resquícios de religiosidades da sua breve infância. A net estava tão sobrecarregada que uma vez por dia era necessário colocar offline milhões de users por forma a recuperar endereços de memória e desfragmentar os swap-files. O lado sarcástico da questão era que alguns dos users não aguentavam o limbo e quando as ligações eram restabelecidas os links estavam mortos. Só restavam as carcaças raquíticas para serem removidas pelos técnicos.
Offline. A ausência. A privação. O silêncio. A quase total falta de input sensório. Nestas ocasiões gostava de aumentar ligeiramente a luz. Fazia-lhe companhia, a baça e amarelenta luz, que o deixava entrever as formas das consolas, dos monitores, das miríades de cabos e receptores bluetooth. A diminuta sala era um repositório de alta tecnologia e obsolescência. Uma vez por outra um técnico vinha mudar uma consola, ou colocar uma nova placa aqui ou acolá. Mas tudo era feito na penumbra, para não queimar as suas retinas foto-sensíveis, alteradas para interpretarem fluxos electrónicos e já desabituadas ao mundo analógico. Normalmente o técnico não levava a velha consola ou a placa substituída, antes deixando-as a um canto, amontoadas umas em cima das outras, até quase ocuparem todo o espaço livre. No início enviara alertas pedindo para removerem o material caduco. Mas nunca obtivera respostas e com o tempo habituara-se à companhia daquele material duma outra época. Eram como sedimentos na crosta terrestre. Vestigíos dum passado que era o dele. A sua história acumulava-se à volta, submergindo-o em catadupas de silício verde.

Actualmente havia umas experiências com proto-plasma, mas ainda não vira esses novos chips. Dizia-se nos fóruns que eram diminutos, quase à escala sub-atómica, e que a olho nu pareciam gel. Um copo vulgar de gel poderia conter toda a capacidade de computação desde a proto-história do ENIAC. Também se dizia nos fóruns que com o advento do gel os crawlers ficariam ultrapassados. Não faria mais sentido a transmissão de pacotes, porque o gel comunicaria numa capa quântica. Todo o gel saberia de tudo, logo não tinha de receber pacotes de informação porque esse saber já estava integrado e sempre estivera integrado. E a geração de novo saber derivado da interacção dos paradigmas seria quase instântanea em todos os chips.

Os optimistas consideravam que tal não seria para já. Havia ainda muitas arestas por limar. Para começo ainda nenhuma firma aparecera com um SO suficientemente robusto para aguentar com tanta informação. O Consórcio também colocava entraves à entrada na net desse hardware enquanto o mesmo não fosse testado em laboratórios isolados. E os testes demorariam anos.
Os pessimistas argumentavam que os testes já iam numa fase muito avançada, mas publicamente ainda pouco se sabia por forma a não lançar o pânico e o caos nas bolsas. Uma tamanha revolução teria de ser introduzida por forma a não desajustar o status quo das corporações. Mas que ela estava eminente disso já não podiam restar dúvidas. Os sinais avolumavam-se. Nos últimos tempos nenhum ou quase nenhum user recebera upgrades. Os técnicos, quando solicitados, acorriam em pouco tempo, o que de acordo com os mais pessimistas, significava que tinham menos trabalho, indício de que cada vez haviar mais users offline. Os bottlenecks ficavam minutos por resolver. Os admins passavam a vida em reboots e shutdowns. Alguns users ainda se lembravam de quando faziam shutdown uma vez de cinco em cinco anos. Agora era uma vez por dia. Era certo que a lotaria fazia que nem sempre fossem os mesmos users a ficarem offline, mas era frequente sairem na lotaria uma a duas vezes por mês.

Pensava nisto tudo quando sentiu os ecos do restabelecimento das comunicações. Estava de novo online. Novo contacto a DeSanti. O mesmo resultado.

A Maintenance’R’us voltara a deixar-lhe um alerta. Tinham identificado os agentes. Era um novo WORM polimórfico que já fora entretanto reconhecido e já existia um patch para upgrade. De imediato fez o download, mas algo não batia certo… Os CRC’s estavam alterados e contudo o download efectuava-se e o patch instalava-se. Vários alertas piscaram-lhe nas retinas. Mas estava impotente. Viu o seu corpo ser consumido pelo WORM. Estava contaminado e a net recusava-se a ceder-lhe um link. Para todos os efeitos estava morto. Separou-se a custo da consola e enviou sinais às extensões para que pegassem nele e o depositassem na esfera. Aparentemente ainda possuía o controlo do seu ambiente porque de imediato os braços desceram do tecto, pegaram no seu corpo rudimentar e levaram-no gentilmente para dentro da esfera, uma pequena bola de metal com interior almofadado, que só uma vez fora por ele usada. A esfera abria-se no eixo longitudinal e quando fechada seria quase impossível dizer onde ficava a linha de abertura. No seu interior havia ligações neurais que encaixavam perfeitamente nos corpos alterados dos crawlers. O SO das esferas era antiquado mas perfeitamente capaz de entender os sinais dele por forma a traduzirem-se em impulsos motores que accionavam o campo anti-gravítico da mesma. O vírus era tão sofisticado que não entendia aquele SO e ambos ignoravam-se como dois cavalheiros que se cruzavam numa rua nevoenta.

Navegou um pouco pela sala, sentindo os controles, antes de se aventurar até à portinhola. Por breves instantes pensou que a mesma não se abriria, mas a esfera não abrandou e a portinhola reconheceu a proximidade de um corpo, abrindo-se e dando passagem para o exterior.

Nos dois sentidos estendia-se um corredor. A superfície reflectora da esfera transmitia para o córtex visual dele a imagem detalhada do mesmo. Virou à esquerda, não porque aquela direcção tivesse algo em especial, mas pelo simples facto de ter de optar e nenhuma das duas alternativas oferecer algo que as distinguisse uma da outra. Em certa medida era o mesmo que fazia quando corria um run. Optava por certos atalhos, em detrimento de outros, numa busca frenética para poupar uns quantos ciclos de relógio.

O corredor parecia não ter fim. De um lado e do outro, portinholas. Todas fechadas. Pensou em invadir a sala de outro user, mas seguiu em frente. Tal ousadia era algo quase impensável. Estremeceu no interior almofadado da esfera, pensando no que faria se invadisse a sala de outro user. Como comunicaria com ele? Seria visível para o outro o seu estado de contaminação? Sentiria o outro repugnância, medo? Qual seria a sua reacção? Ataque ou defesa? Se o outro comandasse bem as extensões, e nada fazia pensar o contrário, ser-lhe-ia bastante fácil ver-se livre do intruso. Bastava um ou dois comandos para estralhaçá-lo numa massa informe. Mas e se o outro estivesse em pleno job? Estaria indefeso, à mercê de quem invadisse o seu cubículo. Abandonou aquela linha de pensamento. Por pouco não dava consigo a planear um assassinato. Mas havia demasiadas variáveis. E havia outras opções. Eram essas opções que ele perseguia agora.

O maldito corredor, obstinado, não parecia querer terminar. Se calhar escolhera a direcção errada. Já estava a navegar à cerca de vinte minutos, percorrera mais de cinco quilómetros. Decerto que os técnicos não andavam tanto. A saída devia ficar na outra direcção. Inverteu a marcha.

Outros vinte minutos passaram. Passou pela sua sala, facilmente identificável pela portinhola aberta. Percorreu mais cinco quilómetros na direcção contrária, mas, tal como anteriormente, não divisou um fim ao corredor. Usou as capacidades de zoom da esfera sem resultados. Em frente o mesmo corredor, pálido, asséptico. Com portinholas dos dois lados. Prosseguiu a marcha. O maldito corredor havia de terminar algures. Os arquitectos daquele lugar não teriam concebido um edifício sem saída. Lembrava-se vagamente de ter sido para ali trazido. Há muitos anos. Mas as memórias eram confusas e o vírus já se alojara nos principais circuitos neuronais do cérebro e podia estar a provocar-lhe alucinações. Aliás nem sequer sabia se tudo aquilo não passava de um construct. Se o vírus tinha mesmo capacidades polimórficas podia ter-lhe tomado de assalto os centros cognitivos e estava neste preciso instante a criar-lhe a ilusão de movimento, enquanto usava as suas capacidades de processamento para correr troianos na net, disfarçado com o seu avatar. Apenas em modo aBstraCt poderia ser detectado como falso e eliminado pelas countermeasures dos outros users. Mas poucos abandonavam a segurança dos constructs em prol do aBstraCt.

Não podia ceder à paranóia. Afinal sentia o SO da esfera nas interfaces neuronais, sentira as extensões a pegar nele e a colocá-lo na esfera. Tudo sensações analógicas, muito difíceis, senão impossíveis, de emular por software.

Tentou assimilar o SO da esfera e transformá-lo para correr rotinas por forma a aperceber-se da extensão da contaminação, mas a esfera era renitente em deixar-se copiar. Antigos problemas de direitos de autor impediam-na de ceder-lhe as fontes, ou até um binário compilado. Estava à deriva. Só podia esperar o pior. E o maldito corredor que não terminava. Senão soubesse o contrário pensaria que tinha entrado num loop…

Mas, eis que em frente, uma ligeira mudança de cor, um vulto, uma sombra. Seria um técnico? Colocou o zoom no máximo e usou um filtro de imagem anti-aliasing para resolver os traços. Era de facto um técnico. Montado numa scooter, vinha na sua direcção. Já o devia ter visto. Estava salvo. Um upgrade seria o bastante para o pôr de volta ao seu melhor. Rejubilante parou a esfera e abriu-a, ao mesmo tempo que cerrava os olhos para proteger as retinas. Aguardou a chegada do técnico. Não sabia se a intensidade luminosa era perigosa ou não, mas não arriscava danos permanentes. Uma cirurgia ocular não era nenhuma brincadeira. Nem todos os creds que ganhara durante o ano davam para cobrir o custo de novos implantes. Melhor jogar pelo seguro. Contudo tinha de se expôr, porque senão o técnico pensaria que era apenas um user a matar o tempo. Decerto veria que se passava algo de errado.

A scooter aproximou-se. O som encheu o mundo. Nunca imaginara que aquelas máquinas antiquadas pudessem ser tão barulhentas. Mas os técnicos gostavam muito delas. Achavam-nas mais confortáveis do que viajar dentro de esferas anti-gravíticas completamente herméticas.

A scooter parou. Por instantes o motor ronronou, enchendo a atmosfera de gases nauseabundos, depois fez-se silêncio. Como habitualmente o técnico nada disse. Em dezenas de anos de contactos esporádicos nunca ouvira um deles dizer fosse o que fosse.

Passos soaram na sua direcção. Ouviu um som como que um gorgolejar de líquido. Devia estar a encher a hipodérmica. Uma mão tocou-lhe no topo da cabeça forçando-a a inclinar-se. Antes do mundo se apagar sentiu o toque frio da seringa.

© Ricardo Loureiro, 2002

De acordo com a informação dada pelo autor este conto surgiu em primeiro lugar no fórum sci-freaks, que já não existe, e depois passou por outros dois fóruns, o Tolkiennianos e o BBdE.

Biografia : Ricardo Loureiro

Vive no topo da Montanha do Universo Conhecido donde contempla o voo da Falcoa.

Solitário, meditativo, prenhe da consciência cósmica ou talvez apenas propenso a miragens provocadas pelo parco alimento que se colhe nas escarpas do Tempo Glauco.

Para entreter as noites gélidas e os dias ventosos escreve umas ficções que por vezes cruzam os paralelos da Realidade.

Nova


Carvalho-e-Velho – Marcelina Gama Leandro

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Marcelina Gama Leandro é uma jovem autora bastante promissora; será publicada no primeiro número do Jornal Conto Fantástico, no nº2 da revista Dagon e na antologia Vollüspa. Pode ler aqui um dos seus contos, publicado na antologia Talentos Fantásticos em 2009.

Marcelina Gama Leandro

Carvalho-e-Velho

Carvalho-e-Velho era uma aldeia perdida em sitio algum, uma pequena aldeia nas fronteiras, entre vale e rio, onde ninguém desejava melhorar de vida, onde ninguém pensava em mudar, onde tudo se perdia até a memória. A aldeia tinha cem habitantes se tanto, três crianças apenas, um monte de velhos, alguns casais já sem idade para ter filhos e um padre. Era difícil ser criança ali, todos gostavam da contínua tristeza, do trabalho árduo e duro. Não era suposto haver brincadeiras, correrias e risos. Mas naquela altura com apenas sete e oito anos ninguém se importava com isso. O duro eram as aulas dadas pelo padre, que ensinava o básico para saberem ler e contar. Sempre rigoroso, gostava de usar a cana com muita frequência. No fim das aulas havia sempre trinta minutos de joelhos na pedra fria da igreja, onde a voz não podia falhar enquanto se rezavam as Ave-Marias a pedir perdão por algo que se tivesse feito, ou simplesmente por não ser tão puro e imaculado como a Virgem Santíssima.

Pedro era o mais velho, o mais inteligente, o mais corajoso. Um verdadeiro ídolo. Ele sairia dali quando tivesse idade, ninguém duvidava disso. Tinha uns olhos grandes e pretos como carvão e sempre que alguém tinha de apanhar por algo que tivesse acontecido, Pedro avançava com o queixo erguido e firme como desafiando tudo e todos, para proteger os mais pequenos. E era isso que os velhos mandões e o padre mais detestavam nele.

A aldeia ficava num vale com um pequeno riacho como fronteira, onde as brincadeiras nunca tinham fim, fosse a atirar pedras ou simplesmente a molhar os pés, o tempo ali era outro, as regras eram outras e Pedro o paladino. Era justo nas brincadeiras e muito mais velho do que os seus oito anos sugeriam. O riacho descia do monte Escuro alto e imponente, por entre bouças escuras cheias de cães selvagens. Havia um verdadeiro terror em ir para lá das árvores. Demasiado escuro, demasiados sons desconhecidos.

No dia seguinte era o aniversário do Pedro, fazia nove anos e como estava muito avançado na escrita e nas contas, todos sabiam que ele deixaria as aulas para começar a trabalhar com o pai no campo. Ele não tinha medo disso e não fazia grandes planos. O pai um homem duro, moldado pelo trabalho e pelas obrigações, a mãe uma mulher demasiado boa para viver naquela aldeia de gente triste, não sabia impor a sua vontade. Não podia “desrespeitar” o marido, a família e a aldeia. Nunca abria a boca para defender os seus filhos, ficava apenas a um canto a chorar silenciosamente quando o pai aplicava mais uma dura surra ao Pedro. Depois pela noite, esgueirava-se para o quarto dos filhos, para tratar das costas do Pedro e dar leite quente a cada um.

Naquela noite, as coisas foram diferentes, em casa estava a haver uma reunião estranha, o que fez a mãe ficar à porta, a fim de evitar interrupções indesejadas. Na cozinha estava já um cozido em cima da mesa e caldo quente, broa dura e água. Na sala ouviam-se murmúrios de vários homens, a mãe lavava a louça e parecia bastante calma.

- Quando acabarem de comer, vão-se deitar logo. Não se esqueçam de por a roupa junto ao lume para ficar bem seca para amanhã. Mas não demasiado próximo, ouviste Luís?

- Sim mãezinha.

Ali na cozinha com o lume acesso, o caldo com couvinha e a mãe com um sorriso carinhoso nos lábios, o mundo parecia outro. Nada importava naquelas alturas. Nem as vozes da sala que falavam mais alto agora, pareciam ter importância.

O jantar foi lento e saboreado, pois o pai não estava lá, nem a mãe tinha vontade de que houvesse pressas.

Da sala o pai chamou-a com um “ronco” alto e ela nervosamente olhou para nós.

- Despachem-se. Metam-se na cama depressa.

Saiu da cozinha sem olhar para trás e num instante já tudo estava comido, arrumado e metido na cama. Os sons que vinham da sala não eram tranquilizadores, as vozes elevavam-se. O Pedro tinha deixado a porta do quarto encostada de modo a ouvir melhor os barulhos. Não se conseguia perceber o que diziam, mas percebia-se que as coisas não estavam a correr bem. A mãe começara a falar com a voz a tremer, e cheia de interrupções e sacudidelas. O que estaria a acontecer.

- A mãe está a chorar. – disse Pedro por entre lábios.

Um baque surdo, de seguida algo a bater contra a porta e a sacudi-la. Depois vários passos firmes e rápidos e pessoas a saírem para fora da casa. A porta do celeiro a abrir e a fechar. Pedro levantara-se para espreitar pela janela da cozinha. Voltara a correr para o quarto.

- Vamos dormir, sim Luís?

- Mhmm. O que é que aconteceu?

- Nada Luís, não vi nada.

Lá fora algo tinha acontecido e Pedro tinha visto, dois homens da aldeia prenderem a mãe desmaiada no celeiro. Sem saber o que fazer, apenas com a necessidade de não assustar o irmão mais novo, ele voltara para a cama, esperando que todos fossem embora para poder ir ter com a mãe.

Os olhos pesavam e os sonhos iam e vinham com o avançar da noite. A meio da noite, tinham batido as doze badaladas na igreja, o Pedro saiu devagar da cama e vestiu-se. Ao atravessar o terreiro de encontro ao celeiro, uma sombra alta surgiu sobre ele enfiando-lhe um saco e agarrando-o com força. As pequenas pernas a esperniar e a lutar eram ineficazes e com passadas grandes e o saco nos braços o pai afastou-se em direcção ao riacho. Junto a este encontravam-se os restantes homens da aldeia. O pai depositou o saco nos braços de um deles.

- Segue-te alguém homem? – pergunta o padre.

- Mhmm. – abana a cabeça pai, negativamente em resposta.

- Estranho parecera-me ver mais que uma sombra. Bem, vamos lá, para terminar com isto depressa.

O grupo começou a caminhar devagar em direcção ao monte, mas o pai voltara para a aldeia. O padre ainda o ia chamar, mas um outro lavrador da aldeia impedira-o. A neve começava a amontoar-se e a subida do monte tornava-se mais lenta. Era um cortejo de sete homens e de um saco silencioso. O monte era mais alto do que parecia e o percurso difícil. A meio do monte começaram a orientar-se para a esquerda, em vez de continuar a subir. Agora já ninguém falava e a tensão aumentava, hora depois, numa encosta desconhecida sem grande vegetação os homens entraram numa gruta descomunal, com uma entrada larga que dava para mais de cinquenta homens e que logo se estreitava num corredor onde passaria apenas um cão grande ou um vitelo. Os homens pousaram o saco no centro da entrada e afastaram-se, o padre retirou um livro escuro e pequeno e leu algumas frases que ninguém percebia. Uma respiração arfante começou-se a ouvir e a aumentar de tom e todos os homens começaram a correr pela gruta fora monte abaixo, alguns a escorregar outros caindo violentamente.

Escondido por trás de uma pedra na entrada da gruta, eu esperava que os barulhos diminuíssem. Queria ver o que se passava, queria ajudar o meu irmão Pedro. Os homens já só pareciam pequenos pontos lá em baixo. Da gruta a respiração era alta e arfante. Grunhidos e sons guturais estavam mesmo ali ao lado. Um grito. Era o Pedro. Um baque seco e o silêncio absoluto. Algo se mexia agora e rasgava pano, depois um lento arrastar a afastar-se. Levantei a cabeça lentamente e o meu sangue gelou. Duas patas com garras curtas agarravam a perna do Pedro e arrastavam-no para dentro, o monstro já estava protegido dentro do corredor e deixei de o ver. Então olhei para o Pedro, a deixar um rasto de sangue por onde era arrastado e desaparecer lentamente dentro do corredor com os olhos abertos, aqueles olhos cor de carvão, já sem vida, a fixar o tecto. De gatas agarrei o saco de pano onde o meu irmão tinha sido trazido até ali, agarrei-me ao saco e sai dali para a noite escura.

Fui encontrado no dia seguinte já o dia ia avançado. A minha mãe com outras duas mulheres avançavam pelo monte à procura daquilo que já sabiam não existir. Abraçou-me, pelo menos ao que restava de mim, em camisa de dormir, gelado pela neve, com os pés em sangue, agarrado ao saco com sangue seco, com os olhos abertos e fixos na gruta.

Nesse mesmo dia a minha mãe e eu, saímos de Carvalho-e-Velho e viemos para a cidade grande, para este hospital, já lá vai muito tempo. Todos os dias escrevo esta história para nunca esquecer, o que os médicos tentam apagar da minha memória.

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Biografia:

Marcelina Gama Leandro, nasceu em Março de 1983, em Gevelsberg na Alemanha, de onde regressou, à terra dos seus pais, na vila da Junqueira em Vila do Conde, aos 9 anos de idade. Licenciou-se em Engenharia de Redes e Sistemas Informáticos na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde exerceu como investigadora e monitora, tendo também recebido o prémio Abílio Malheiro e conclui o primeiro ano de Mestrado na mesma Faculdade. Tem nos últimos anos participado em diversos congressos na área da literatura e da história. Publicou no ano transacto um conto na antologia Projecto Talentos Fantásticos 2009. Trabalha actualmente como Engenheira de Sistemas no sector privado.


Valter Marques – Conto: Marvlin

Valter Marques

Um autor promissor, de escrita fluída e simples, sempre com muito para contar. Nos seus contos Valter Marques faz coabitar o fantástico com o quotidiano. Não existem limites para a imaginação pois nos seus universos são frequentes os comboios mágicos intergalácticos, montros e  o próprio escritor enquanto personagem…

Descubram então este Marvlin e acompanhem as suas derradeiras aventuras…

Valter Marques

Marvlin

Marvlin estava sozinho. No lar que era da família há centenas de anos, ele era o único ocupante. Não tinha recordações dos familiares, excepto do pai, este fora quem o criara. A mãe morrera, pouco tempo depois do seu nascimento, devido a uma qualquer doença. Depois da morte da sua amada, o pai, não conhecera mais nenhuma fêmea. Por isso não houvera mais filhos. Marvlin sentia-se sozinho e esgotado. Aguardava a morte com expectativa, com a mesma impaciência de alguém que espera a chegada de uma prenda anunciada.

O Marvlin era um monstro. Sim, aos olhos de qualquer ser humano, era uma besta horrorosa. Com a aparência de um demónio, algo saído do cruzamento de um lagarto com um morcego e sobre o qual poisara a cabeça de um cavalo de dentes afiados e olhos negros. Sentira o pavor emitido pelas poucas pessoas a quem permitira ser visto. No entanto, para ele, também os frágeis humanos eram feios, tal como o fedor que emitiam das suas cidades barulhentas.

Sabia que se desconfiassem que vivia tão perto deles, mesmo por debaixo dos seus pés, das casas e dos esgotos, o caçariam e tentariam matar. Por esse motivo (e outros) não sentia qualquer tipo de remorsos em matá-los. Nem sempre o fizera, sempre preferira evitar o contacto com tais criaturas, mas agora estava velho, os sentidos já não eram apurados, os músculos não respondiam com o vigor e intensidade da juventude. Estava doente. As presas de pele frágil e carne tenra eram fáceis de caçar. Não podia descer mais baixo, meditou Marvlin com pesar, condenado a comer humanos, imundos e insignificantes.

Leia mais no separador dedicado aos contos aqui no site do jornal “Conto Fantástico”.


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