Desta vez publico um conto da minha autoria, que explora a temática do terror psicológico. Espero que vos agrade!
Roberto Mendes
A Porta!
Lembro-me que o dia acordou em tons laranja e com um cheiro doce de canela e mel; Agora o sol já perpetuou a sua viagem pelo céu, pintando-o de azul celeste pela manhã,
salpicando-o de cinzento-escuro pela tarde: fazendo a chuva cair pela terra: o cheiro
molhado a imperar. O feixe de luz que entrava pela janela de vidros sujos iluminava parte do meu corpo sentado com as costas apoiadas na parede da antiga sala. Lembro-me de ter esticado o braço e aberto a mão numa frustrada tentativa de a agarrar: a luz! Mas apenas consegui fazer dançar o pó que consumia o ar; retirei a mão sem pedir desculpa ao pó que acabou por voltar à sua posição inicial: a dançar, a dançar na luz; Nas minhas mãos tenho uma chave; uma pesada chave de latão, amarela, pesada por ser antiga, pesada por ser daquela porta, da porta que nunca abri. Agora o sol já se deitou na sua cama ardente e todos dormem, mas eu estou acordado no luar. Olho a porta mágica; a sua madeira corroída pelo tempo, tanto tempo. É a porta de meu pai, a porta que nunca me foi permitida, a minha porta amiga! O tempo que passei a olhá-la, somado pela ampulheta eterna, é superior a uma eternidade. Passei mais tempo a admirá-la do que a viver; aliás, não vivia enquanto não a olhava. A minha mente recua, recordo o dia em que a vi pela primeira vez:
Tinha oito anos, a minha família havia-se mudado para uma pequena casa no campo, fugindo de um passado que nunca percebi.. A casa era muito simples, bastante humilde. Nada se destacava a não ser uma velha porta de carvalho escuro. Até aqui nada de especial, contudo esta porta estava repleta de trancas que finalizavam longas correntes de ferro. Era vedada, proibida desde o primeiro dia pelo meu pai. Fascinava-me aquela porta. Dedilhei as correntes, sentindo o frio ferro na pele. Um enorme desejo de entrar levou-me a pegar nas fechaduras num movimento rápido, quase me esqueci que seria impossível forçar correntes tão colossais. De súbito recordei as ordens do meu pai e, assustado, emergi do meu profundo transe rodando sobre mim mesmo numa fracassada tentativa de emendar o erro cometido, mas era tarde demais; Um enorme punho cerrado, agigantado pelo medo que senti, abateu-se sobre a minha face fazendo-me girar no ar, corpo atirado no vazio, ferido ensombrado pela lamacenta passagem do tempo pela realidade que se alimenta de todos nós. Cuspi sangue na porta, gotículas da minha individualidade que se juntaram àquele misterioso ser que me fascinava. Atordoado tentei levantar-me mas ao ver a porta conspurcada com o meu sangue o meu pai desferiu um enorme pontapé no meu estômago, levando a que a pesada bota de cabedal emitisse um impacto surdo que pareceu perfurar o meu corpo. Cuspi mais sangue vermelho vivo, repleto de viscosidade e dor, sangue que jorrou directamente para os tacos de madeira que me abrigavam, trincheira de guerra do soldado moribundo.
Olho agora para a porta, semi descoberta pela bela luz lunar e admiro os resquícios de sangue que ainda ali permanecem, tão decididos a nunca a abandonarem, tal como eu.
Ali fiquei, prostrado no chão numa falsa imobilidade, rezando baixinho para que tudo parasse…e, ainda que incitado pelo meu pai, eu não ousava levantar-me:
- Levanta-te! Enfrenta-me como um homem – vociferava;
Não me levantei, não consegui reunir a coragem suficiente para tão grande esforço. Ainda ouvi um desdenhoso “maricas” que prontamente foi abafado pelos meus gritos de dor enquanto era pontapeado mais alguns segundos que me pareceram uma eternidade. Finalmente os golpes pararam e eu agradeci a todos os Deuses por ter sobrevivido, abri os olhos e vi o sorriso doentio que desenhava a cara do meu pai em tons de orgulho e prazer.
-Olha o que me fizeste fazer… – atirou ele antes de me deixar batendo com a porta que dava acesso ao seu quarto. Fiquei ali, enroscado em dor, aninhado em solidão. No meu delírio de tortura pensei ter ouvido uma voz sibilante que me garantia que tudo ficaria bem. Ouvi ainda o som de vidro a quebrar e os gritos da minha mãe enquanto o meu pai se divertia; adormeci…
“Acorda meu pequenino; acorda agora pois a mim já me acordaste; ah, à mil anos ou mais que durmo, esquecida no tempo, não mais que simples espectro pestilento, envolvida em branco impuro tingido de negro, pintado de escuro…acorda pequenino e viverás…” a voz sibilante fazia soar as suas palavras no interior do meu espírito. Seria um sonho? Ou o sonho seria a realidade? Pois como poderemos saber se o sonho é, na verdade, a realidade e a realidade é o verdadeiro sonho? Podemos acordar (ou pensar que acordamos) quando na verdade adormecemos. A vida real pode ser o sonho… a minha mente deambulava entre pensamentos, nunca soube bem porquê mas sempre me fascinou pensar, e a minha mente sempre fervilhou com milhares de pensamentos simultâneos, que me assaltavam, tomando conta de mim, paralisando-me, intensidade incontrolada no mundo das ideias; E foi assim que acordei (ou será que adormeci?), envolvido pelas palavras doces de uma voz que não conhecia, mas que logo amei. Os raios do sol madrugadores emprestavam à sala uma aura incandescente. Obriguei-me a levantar e com um rápido e doloroso duche limpei o sangue seco e coagulado das minhas feridas. Entrei na cozinha, a minha mãe chorava, abracei-a e saí sem comer nada. O meu estômago latejava de dor. Pendurado na porta estava um cartaz escrito à mão: “que ninguém toque na porta, senão…”; que palavras meigas tem o meu pai, pensei. Saí e abracei a manhã doirada e verdejante. Explorei a área circundante sem encontrar nada que me fizesse olhar duas vezes até que me deparei com um trilho que passava por entre o bosque, aquele caminho atraía-me! Segui-o. Era bom saborear a brisa fresca que se fazia sentir. Na minha solidão recordei a voz que me envolvera, que sonho estranho, conclui. Caminhava à largos minutos quando o vi. Não esperava encontrá-lo ali, nem ali nem em qualquer outro lugar, não, não, não… Um grito mudo inflamou o meu peito ao ver o seu sorriso inconfundível.
-Vem aqui! – Obedeci prontamente. Ele estava encostado a uma enorme e velha sequóia. O seu serrote repousava no chão. Odeie-me por me ter sentido atraído por aquele caminho, que armadilha diabólica.
– Sobe a esta árvore – a sequóia agigantava-se a todo o bosque, paralisei;
– Obedece – não me mexi – Obedece raios, sou teu pai…
O meu corpo arrancou-me da minha inércia escapando por pouco a um pontapé que se perdeu no ar. De súbito estava sentado em cima de um grosso ramo da árvore, talvez a dois metros do solo. O meu pai parecia satisfeito.
– À muito tempo que quero saber algo; quero saber se o meu filho confia no seu pai! Deixa-te cair, confia em mim e eu apanhar-te-ei, prometo. – o medo insurgiu-se contra mim, pânico desmedido que me controlava. Fechei os olhos e deixei-me cair : eu a cair, os meus olhos a abrir, o sorriso rasgado tornando-se numa enorme gargalhada que consumiu o mundo, e eu logo a querer desistir, e eu a cair, e ele a rir, o meu corpo a cair, e ele a sair, e eu a cair…dez segundos, dez minutos, dez horas, dez dias, dez semana, dez meses, dez anos, dez mil anos…e uma lágrima a surgir, e ele sempre a rir, e o grito abafado sem sair: os meus ossos a partir…
– Nunca confies em ninguém, esta é a lição que te ofereço;
A noite ainda me abraça e as lágrimas teimam em rolar pela minha cara; olho-a de novo. Apenas ela me compreende. Tudo o que fiz foi por ela, pela minha porta mágica, pela minha voz sibilante. A chave torna-se cada vez mais pesada e a minha mente recua de novo…
Os meus dias tinham apenas um propósito, admirá-la passar tempo com ela, imaginar os mil mundos que me eram descritos pela voz sibilante; se ao menos pudesse entrar; “comigo poderias ir para onde quisesses, para que tempo e espaço quisesses pois eu sou o portal dos mundos”; Eu assistia aos breves momentos em que a porta era aberta, apenas o suficiente para que o corpo do meu pai passasse. Ele permanecia ali horas…depois quando a porta reabria era de novo por fugazes segundos e era tão pouco que nunca consegui ver nada… A minha vida resumia-se a um quotidiano fastidioso : acordar e seguir para a escola onde era posto de parte pois era diferente. Chamavam-me o “louco”, ninguém me dirigia a palavra. Chegava a casa para almoçar e de tarde trabalhava com o meu pai, cortando lenha e vendendo-a porta a porta. Não passava u dia sem que precisasse de prescindir de algumas gotas de sangue cansado e triste para que o meu pai se pudesse sentir bem. Tinha apenas uma amiga, a porta! Os dias foram passando sempre iguais…
14 outubro de 1953 : Iria ter um irmão. Era o meu décimo quinto aniversário e iria ter um irmão. Com a cabeça encostada à porta fechada da cozinha eu ouvia a minha mãe contar a uma vizinha: “estou de três meses” dizia ela “quando contas ao teu marido?” perguntou a vizinha ,“não sei”…
1 de Novembro de 1953: Apesar de a barriga da minha mãe ser já um pouco saliente o meu pai ainda não sabia da sua gravidez. Eu estava com ele, desde que soubera que teria um irmão que a vida me sabia melhor; A presença da voz era agora muito mais frequente e até durante o dia eu podia falar com ela. Juntos combinámos como eu acabaria por derrotar o meu pai e como fugiria com a minha mãe e o meu irmão para outro mundo. Caminhávamos na carroça que o meu pai havia construído; O meu pai puxou as rédeas e a mula abrandou. Saímos rapidamente e carregámos dois grandes cestos de lenha. A casa do nosso vizinho é pequena, pintada de branco com um bonito rodapé azul. Entregamos a nossa última carga do dia. O dinheiro é entregue, é tempo de ir para casa. Subimos para a carroça . A mula arranca vagarosamente. O meu vizinho encontra-se no sopé da estrada de terra batida. Grita para nós, o meu pai volta-se e ouve “ desculpa, esqueci-me, parabéns pelo novo rebento” . A expressão do meu pai é colérica. Eu encolho-me de medo.
A nossa casa surge, a noite já cai sobre o dia.. O meu pai entra em casa, na sua mão direita leva um barrote enorme de lenha. Pontapeia a porta da cozinha e avança. Desfere dois golpes com o pau apanhando a minha mãe no dorso e no ventre: já não vou ter um irmão. Sinto o ódio tomar conta da minha consciência, sinto-me enlouquecer, desmaio.
Acordo, a voz não me diz nada, procuro-a ainda antes de abrir os o lhos, chamo por ela mas nada acontece; Abro por fim os olhos, assustado vejo que não sei onde estou. Encontro-me deitado numa pequena cama com um colchão muito duro. Pareço estar num quarto bastante pequeno, as paredes são sufocantes, pintadas de branco, sem mácula, não existe qualquer janela. .Estou desconfortável, tento mexer os braços mas não consigo. Olho e pasmo: um colete branco envolve-me, prendendo-me. Nos meus tornozelos duas correntes prendem-me à cama. Grito, grito muito alto, estou apavorado. Dois homens grandes, médicos vestidos de branco, aparecem de súbito e agarram-me. Um segura numa seringa…depois tudo se tornou muito confuso…adormeço…os anos passam, primeiros dez, depois mais dez e a voz não aparece, e eu longe dela, encerrado no manicómio…
As lágrimas já cessaram. É maravilhoso como quando acabamos por desistir, conformando-nos com a impossibilidade de alcançar o desejado, no exacto momento em que baixamos os braços os nossos sonhos ressurgem, dando-nos nova esperança. Depois de eras negras, séculos obscuros, a voz finalmente voltou! Surgiu triunfante no seu esplendor de perfeição, acordando todos os meus sentidos, acordando em mim sentimentos perdidos. A dor, o desejo e a paixão: Vingança…a palavra surgia doce, trazendo-me um sorriso de prazer.
O sangue lodoso escorre pelo soalho de madeira corroída pelo tempo. Brilha, vermelho vivo infestado de veneno translúcido. Escorre, por vezes só um fio, outras vezes um autêntico rio negro voluptuoso que abraça o mundo. Caminha pelo chão, rodeando o seu corpo. Deitado de costas, com um sorriso cínico pintado sobre olhos de espanto e medo está ele, o meu pai! A poça de sangue é a sua cama, leito divino do pecador; e o sangue galga os orifícios mágicos jorrando para o real, sorrindo para mim, eu sorrio para ele também, sangue do meu sangue, criador entorpecido pela lânguida lâmina afiada.
O sangue pálido desliza, fraco, por entre caminhos tortuosos, vermelho baço, insignificante. Escolhe caminhar para os seus braços, amor eterno de maus tratos doces, envolve-se com ele, sangue viscoso, numa dança inebriante que me revolta o estômago; A minha mãe olha-me com olhos vazios e brancos de censura, morta, pó lançado ao vento; O sangue atinge a porta e não pára, entra e a raiva explode, nem mesmo mortos deixam de se escapar por ela, mas ela é minha, só minha! Rio alto, bem alto e ela ri comigo, finalmente acabei com eles, sou livre, posso entrar e perder-me em cidades escuras cobertas de neblina branca, em mares vermelhos e nuvens azuis.
- És um fraco, sempre o foste; sempre o disse à tua mãe.
O meu coração petrifica, desvio o olhar do chão vermelho e fixo-o: está levantado, o sangue continua a jorrar de forma avassaladora, os seus olhos demonstram-me desprezo.
- Bah, sempre serás um fraco, um louco!
- Eu não sou fraco! – grito acordando a noite.
- És, meu filho, sempre serás fraco. Porquê? Porquê nós? Sempre te protegemos dos teus delírios, sempre cobrimos a tua desgraça. Não percebes que estás louco? – a sua voz soa melodiosa enquanto o seu corpo defunto ganha nova vida, cadáver belo de longos cabelos caídos envoltos numa pasta vermelha de sangue coagulado, oscilando entre o amor e o ódio, a ternura e o horror.
- Mãe, és tu? Mas…como é possível?
- Não sei bem, mas penso que sempre viveremos através de ti, apesar de nos teres assassinado; Sempre viveremos em ti porque tudo fizemos por ti, o amor que te demos, eu e o teu pai, e tudo o que fizemos por ti…talvez tenhamos ganho esse direito, o de perdurar em ti, para que possamos conseguir na morte o que nunca conseguimos em vida, mostrar-te a realidade.- o cadáver da minha mãe juntava-se ao cadáver do meu pai, num abraço de morte. Lágrimas secas escorrem nas suas faces.
- Eu conheço bem a vossa realidade, senti bem a realidade dele, quantas vezes me bateste? E quantas vezes na tua mulher, minha mãe?
- Nunca, nunca vos toquei nem com um dedo. Nunca levantei os braços para nenhum de vocês, nem nunca o faria.
- Mentira – vocifero.
- Não é mentira meu filho – a minha mãe liberta-se do abraço e caminha para mim, toca-me na face com a sua mão gelada; – foste sempre tu meu menino, sempre tu quem bateu. Foste tu que nos obrigas-te a mudar para esta casa, escondendo um terrível segredo, fugindo da morte de dois miúdos da nossa antiga aldeia, dois miúdos que tentaram magoar-te. E logo empunhaste uma lâmina que lhes refreou o ímpeto.
- Não, isso nunca aconteceu, mentes;
- Não minto! Tu nunca viveste a mesma realidade que nós, eras normal, um miúdo doce, contudo, de tempos em tempos sofrias acessos de loucura dos quais nunca te lembravas, e depois sempre culpavas o teu pai, o teu meigo pai que tudo fez para te proteger. Apregoavas ouvir vozes que não existem…
- Não! Cala-te, mentes, mentes, mentes; A voz é real! Existe, é minha amiga, a minha única amiga – o meu braço balança a lâmina de trás para a frente, enterrando-a vezes sem conta no vazio do seu corpo. Paro, assustado; perdi a noção do que fazia e ela olha para mim com uma expressão de compreensão profunda.
- O que tu fizeste ao teu pai não tem perdão, mas ele perdoou-te sempre, sempre.– as lágrimas desciam no rosto do meu pai, nascendo nas cavidades que outrora albergaram olhos fortes. – Certa vez atiraste-te de uma árvore e depois culpas-te o teu pai, a policia e os vizinhos acreditaram em ti e o teu pobre pai quase foi preso. Mas ele perdoou-te. Mas o que nunca poderíamos perdoar veio depois… – e eu vi: eu a sair da carroça com um pau enorme alojado na minha mão, eu a correr e o meu pai a gritar para eu parar, eu a entrar em casa, na cozinha, eu a balançar o pau, um som oco a ressoar: já não vou ter um irmão! Caio de joelhos, incapaz de me concentrar, incapaz de aguentar.
- Nunca te perdoaremos… – soam as vozes dos meus pais. Levanto a cabeça e olho. O que vejo? Dois corpos prostrados no chão, o sangue no sangue; O silêncio, a verdade! Aponto para ela, para a porta, e grito:
- Porquê?
O silêncio enlouquece-me. Levanto-me, empunho a chave numa mão e na outra a lâmina mortífera. A chave entra na porta, quero perder-me nos mundos, agora mais que nunca, pelo menos ainda posso viajar no fantástico, para lá deste universo… um som ouve-se, depois outro. Mais um “clic”, a fechadura é violada. Lentamente a porta abre: uma porta sobre a escuridão profunda de sombras e vultos sem luz. Ali podiam estar mares de cores, céus repletos de estrelas cadentes, cidades mágicas, rios vivos…muito devagar a escuridão é absorvida pela luz, depois os vultos tomam formas e o nada abate-se sobre mim: uma pequena divisão revela-se, poeirenta, quase nua, apenas uma velha secretária e uma cadeira de três pernas… “ Ah, ah, ah…” ouço-a rir… a lâmina atinge-me o coração e eu caio, primeiro de joelhos, depois ouço todo o meu peso abater-se sobre o chão.
BIOGRAFIA
Roberto Mendes nasceu em 1987 e é um apaixonado pelas artes, em especial do fantástico. Foi o criador do Correio do Fantástico, um blogue colectivo sobre a arte fantástica. Edita a revista “Dagon” e o “Jornal Conto Fantástico”.





